O Modelo Observador

Resumo e adaptação realizado por Silvana Baccin, com base no livro “Ontologia da Linguagem” de Rafael Echeverría.

“Não sabemos como as coisas são. Só sabemos como as observamos. Vivemos em mundos interpretativos.”

Rafael Echeveria

O Observador que somos

Todos nós somos observadores do mundo e de nós mesmos e nossas ações são diretamente influenciadas pelo “poder” e “limitações” desse olhar. Não sabemos o que o observador é, mas o que ele faz a partir do que observa. Possuímos infinitas possibilidades para captar as experiências e reagir a elas. O que é, então, a realidade? A realidade é apenas uma possibilidade do modo de pensar do observador, que permite a ele criar as mais diversas situações para si, dentre inúmeras possibilidades de agir. Quando agimos é porque uma decisão foi tomada e ela se manifesta interferindo no contexto percebido pelo observador. A ação, por si só, é o resultado de uma escolha entre infinitas possibilidades. Inclusive quando escolhemos nada fazer, estamos escolhendo fazer alguma coisa, ou seja, nada. A ação é objetiva porque é a escolha que fizemos e não outra qualquer dentre as infinitas possibilidades que temos de agir e obter resultados a partir disso.

As distinções que nos abrem e fecham possibilidades na vida

Nossas distinções nos capacitam para interpretar a realidade de nosso modo particular, peculiar (nossos modelos). As realidades de cada um de nós são fruto das escolhas do observador que somos. As distinções são os elementos que utilizamos para movimentar nossa consciência, que nos dão identidade particular e única de ser, que nos faz atuar de forma peculiar. A mecânica se dá pelo pensar, pois o pensamento cria concretudes. Dispor de uma distinção nos permite observar o que outros observadores não observam, nos permite tomar decisões e realizar ações que outros não podem realizar. Para expandir nossas capacidades devemos adquirir novas distinções. Outro observador possui distinções que não temos ou que são diferentes das nossas, não são piores ou melhores, apenas distintas. Portanto, o mundo nos é dado pelo que somos capazes de pensar sobre ele. Nosso pensamento é condicionado pelo modo como fomos educados a perceber a realidade. O que se pode afirmar sobre um objeto qualquer quando dois ou mais observadores afirmam algo em comum sobre ele? Nada, porque não temos acesso à natureza ontológica do objeto, portanto a única coisa que podemos dizer é que os observadores concordam entre si. Ou seja, nada sobre a natureza do objeto. As “verdades” que apropriamos em nossa vida, também são transmitidas desta forma. Quando decido, o faço a partir de minhas distinções adquiridas ao longo de minha história. Como posso escolher conforme inúmeras possibilidades e decido de alguma forma em particular é porque aquela escolha, e não outra, me revela como observador distinto que sou. Se eu tivesse outras distinções que não as que possuo, decidiria de forma diferente da que decidi. Então as decisões estão diretamente relacionadas com as distinções do observador. Ter mais distinções aumenta o repertório do observador e lhe dá mais chances de tomar uma decisão mais adequada. No entanto, nenhum observador é capaz de ter todas as distinções necessárias para decidir sobre um dado domínio ou dimensão, assim, é fundamental compartilhar com outros observadores com diferentes distinções. Esse é o princípio da equipe, do time, do trabalho em grupo.

As expectativas

Decidimos a partir do que desejamos, pois desejos são expressões de expectativas. Algo que nos incomoda exige uma intervenção. A intervenção é precedida da antevisão dos resultados, de visões de futuro que conduzem nossas ações. Elas são construtoras da realidade. Construímos nossas expectativas a partir da visão e do conhecimento que temos de nós mesmos. Nosso autoconhecimento é insuficiente para considerar todas as variáveis envolvidas e todas as possibilidades.

Entendemos que o que gera um resultado é sempre uma ação. Nesse domínio estão inseridos todos os elementos objetivos da decisão – intencionalidade, competência e habilidade. A intencionalidade revela o desejo e a expectativa da ação. A competência refere-se à possibilidade de fazer – ou à pressuposição de que aquilo que desejo é possível. Se considerarmos as categorias da ação, veremos que elas se dividem em três; ou seja, querer fazer, saber fazer e poder fazer. A competência refere-se ao poder fazer, ou à noção que o observador tem de que sua ação é admitida no contexto social. Por habilidade, entende-se a expertise do observador, ou seja, são as destrezas que o constituem, expressas nas formas objetivas com as quais ele interfere no mundo, oriundas das distinções que possui.

Todo resultado é consequência de uma ação concreta e objetiva de um observador distinto. Os resultados revelam e avaliam o tipo de observador que atua. Nossos resultados dizem quem somos e nos expõem a uma avaliação da sociedade na qual estamos inseridos. Expressam a natureza do ser que os obteve.

O modelo do observador nos revela duas formas de aprendizagem, a partir dos resultados que obtemos com nossas distinções, decisões e ações: a aprendizagem de 1º grau (ou primeiro ciclo), e a aprendizagem de 2º grau (ou segundo ciclo).

A aprendizagem de 1º grau é uma aprendizagem de natureza instrumental; ou seja, é uma aprendizagem que ocorre no domínio da ação. Nesse caso, o resultado revela que a inabilidade do observador está no plano da ação; ou seja, no modo como ele realiza as coisas. Ora, isso sendo percebido, instala-se o princípio da aprendizagem do 1º grau: o observador, diante da percepção de sua inabilidade pode optar por adquirir aquela competência de modo claro e objetivo. Ex: aprender a andar de bicicleta.

A aprendizagem de 2º grau é uma aprendizagem ontológica; ou seja, é uma aprendizagem que ocorre no domínio do observador. Tal aprendizagem é mais que um novo domínio da possibilidade de ação, é uma aprendizagem que muda a natureza do observador, muda sua consistência enquanto ser que atua no mundo. Os filósofos quânticos afirmam que a aprendizagem ontológica é uma aprendizagem de distinções. O observador aprende a ser ansioso, maníaco, depressivo, compulsivo, etc, porque as opções interpretativas que adotou para suas experiências e vivências criaram nele uma forma peculiar de ver o mundo e de explicar sua mecânica. Na verdade, a aprendizagem de 2º grau é o que vai possibilitar ao observador expandir sua visão de mundo e atuar nele com uma maior riqueza de repertório. Ex: o observador amplia sua visão do mundo e de si próprio, abrindo novos horizontes de ação.

No entanto, ao atuar, o observador imprime em suas ações certa expectativa sobre o resultado. Normalmente, essas expectativas têm um caráter definitivo – desejamos que o resultado seja perfeito conforme o idealizamos. Mas o que se percebe é que isso raramente ocorre. Na maioria das vezes, há um certo distanciamento entre o que idealizamos e o que realizamos. Isso porque existem outros observadores atuando simultaneamente com perspectivas distintas. Tais forças interagem e geram um fenômeno ontológico que chamo de ingovernabilidade. Por ingovernabilidade devemos entender o conjunto de elementos que podem interferir numa dada ação ou nas diversas possibilidades de interpretação do observador, alterando a configuração de um resultado desejado. A ingovernabilidade, entendida como elemento da mecânica quântica, tem o papel de gerar no observador a consciência de que as coisas não podem ser controladas por ele. Ou seja, o observador não tem domínio sobre a realidade, o que ele tem são intenções e expectativas. Ora, se a perfeição é uma utopia, posto estarmos sobre o domínio da ingovernabilidade, resta-nos construir uma outra distinção. Chamo-a de impecabilidade. Impecabilidade é a distinção que imprime no observador a capacidade de agir da melhor forma possível, considerando todas as condições e potencialidades que possui. Fazer a diferença com os recursos que se tem, atuar a partir das condições tidas por reais efetivas e que o observador pode acessar, realizar como forma de expressão plena do ser, isso é impecabilidade.

Silvana Baccin é profissional com experiência em gestão empresarial, com habilidades em gestão de pessoas e resultados, comunicação e formação de equipes de alto desempenho. Também possui experiência em estratégias de mercado e segmentação de clientes, Gestão de Processos e Projetos. Atua na capacitação de adultos – graduação, pós-graduação e formação de gerentes, como coaching e consultora de empresas.

 

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Evaldo Bazeggio

Diretor Fundador e Diretor Técnico da Bazeggio Consultoria. Executivo com mais de trinta anos de experiência em gestão de equipes e organizações públicas e privadas. Certificado internacionalmente Master Coach ISOR® em Coaching, Mentoring e Holomentoring®. Consultor de estratégia, desenvolvimento organizacional e de pessoas, em organizações.

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